Coluna do Dentista

Artigo

Alternativas restauradoras indiretas na prática clínica: Sistema PROCERA

José Carlos Garófalo*

Keywords: prótese; metal-free; sistemas cerâmicos; PROCERA

Resumo: A utilização de sistemas cerâmicos e resinosos metal-free tem se tornado uma alternativa bastante requisitada para substituir a indicação de trabalhos metalo-cerâmicos. Muitos destes sistemas incorporam grandes avanços tecnológicos que possibilitam ao dentista indicar e executar restaurações indiretas unitárias e pequenas próteses fixas que associam excelência estética à resistência mecânica e longevidade clínica. O Sistema PROCERA é uma destas alternativas. Englobando alta tecnologia à confecção industrializada de estruturas protéticas, este sistema é uma nova alternativa para clínicos gerais e especialistas nas áreas de Prótese e Dentística para a reabilitação estética e funcional de dentes ou áreas com indicação protética.

Introdução

Apesar dos grandes avanços observados nas técnicas e materiais restauradores diretos e na veiculação, cada vez mais eficiente, de procedimentos e manobras de prevenção, os procedimentos restauradores indiretos continuam a ocupar lugar de destaque na prática clínica diária. Em grandes reabilitações, pequenas reposições dentárias, sobre elementos dentais ou sobre implantes, os trabalhos protéticos ainda são as melhores alternativas para se obter, em áreas de perda ou grande destruição dental, estética associada a resistência mecânica bem como restabelecimento e manutenção da função oclusal. O anseio de pacientes e profissionais por tratamentos indiretos com excelência estética, desempenho biomecânico e longevidade desencadeou uma busca incessante por alternativas restauradoras que possibilitem opções ao clássico tratamento com materiais estéticos, cerâmicos ou resinosos, recobrindo estruturas metálicas de reforço. Estes trabalhos, apesar de mecanicamente seguros e das infinitas possibilidades estéticas que os técnicos podem desenvolver a fim de mascarar a estrutura metálica, ainda têm e sempre terão, a limitação de não poderem reproduzir a translucidez do dente e seu comportamento frente a diferentes fontes de iluminação. Soma-se a isso a dificuldade de, nestes trabalhos, esconder a transição cervical entre remanescente dental e bordo das coroas. Uma série de alternativas pode hoje ser oferecida como forma de se restabelecer forma e função a elementos unitários ou pequenos segmentos de arco dental, sem a utilização de infra-estrutura metálica. Basicamente, podemos classificar estes materiais em resinosos e cerâmicos.

Dentre os materiais resinosos, conhecidos como cerômeros, alguns merecem destaque, por possibilitarem além da confecção de elementos unitários parciais e totais, a confecção de próteses fixas de até 3 elementos, associados a fibras cerâmicas ou poliméricas: Targis Vectris, ArtGlass, Sculpture FibreKorr, Belle Glass, Solidex, Zeta entre outros. Apesar de possibiltarem alternativas estéticas e mecânicas de ótima qualidade, estes materiais ainda não alcançaram, para profissionais e pacientes, a excelência dos materiais cerâmicos. Destes, as cerâmicas feldspáticas e os sistemas IPS Empress II, In Ceram, Dicor, Cerec CAD-CAM e PROCERA têm ocupado lugar de destaque como alternativa ao sistema metalocerâmico.

Dos sistemas cerâmicos citados, as cerâmicas feldspáticas são as que apresentam maiores possibilidades de reprodução fiel das propriedades óticas do órgão dental. Carece, entretanto, de resistência mecânica intrínseca, limitando sua indicação a dentes onde exista a possibilidade de, através de uma cimentação adesiva, otimizar seu desempenho mecânico e garantir uma restauração estética, resistente e durável. Estão também contra-indicadas para utilização em próteses fixas dissociadas de infra-estrutura metálica. Os demais sistemas cerâmicos, mecanicamente resistentes mesmo sem um substrato adesivo, possibilitam também, amplas opções estéticas e que dependem basicamente das habilidades do profissional e técnico em prótese envolvidos na sua confecção. As diferenças básicas entre os diversos produtos são a composição do material cerâmico e a tecnologia envolvida na sua produção e confecção dos elementos protéticos. A metodologia de confecção destes produtos é a responsável direta pelo seu desempenho mecânico e fidelidade de adaptação aos modelos de trabalho.

O objetivo deste artigo é mostrar ao clínico geral ou especialista em prótese e dentística uma destas alternativas e algumas possibilidades de oferecer a seus pacientes, tecnologia de precisão associada a trabalhos estéticos com ótimo desempenho mecânico.

Sistema Procera

O Sistema de coroas, pontes e próteses sobre implante PROCERA utiliza a tecnologia conhecida como CAD ou Computer Assisted Design para produzir industrialmente infra-estruturas protéticas compostas por 99,5% de óxido de alumínio densamente sinterizado (PROCERA ALLCERAM) ou zircônia.(PROCERA ALLZIRKON) Estas estruturas são posteriormente recobertas por uma cerâmica de revestimento especial para o sistema. O sistema também oferece a possibilidade de coopings ou estruturas em titânio (ALLTITAN).

O desenho em computador é obtido através da leitura de toda superfície de um troquel, em gesso, por uma ponta de rubi em um scanner conectado ao computador. Este scanner faz a leitura de toda a periferia do troquel desde o bordo cervical até a porção oclusal-incisal. Esta leitura pode levar cerca de 2 a 3 minutos e registrar cerca de 50.000 pontos do troquel escaneado. Registrados em um software próprio, estes pontos fornecem uma imagem tridimensional que pode ser analisada e trabalhada pelo técnico de laboratório e dar início à confecção virtual da estrutura cerâmica. A confecção virtual é iniciada com a escolha e marcação de um ponto no limite cervical da imagem. Com este ponto determinado, o computador tem condições de traçar uma linha que corresponde ao término cervical do preparo dental. Através da magnificação e rotação da imagem virtual, o técnico pode então visualizar e retificar ponto-a-ponto todo limite cervical, assegurando ao futuro coping uma adaptação marginal próxima da perfeição. Após esta etapa, passa-se à seleção no computador do tipo e espessura do coping. O material e espessura do coping foram determinados pelo cirurgião dentista, baseado na solicitação mecânica e estética de cada caso clínico.

Scanner PROCERA modelo 40.

Troquel posicionado para leitura.

Imagem tridimensional obtida após escaneamento Imagem tridimensional do coping escolhido e posicionado sobre o troquel.


Etapas para a obtenção do coping PROCERA
 

Indicações

  • PROCERA AllCeram: coroas unitárias( 0,4 e 0,6 mm ), laminados ( 0,25 mm ), próteses fixas de 3 elementos.
  • PROCERA AllZirkon: coroas unitárias ( 0,8 mm ).
  • PROCERA Abutment: componentes sobre implante em alumina, zircônia ou titânio.

  • A indicação e confecção de trabalhos protéticos PROCERA não necessita que o cirurgião dentista adquira ou utilize qualquer outro material, para preparo dental, moldagem e cimentação, diferente dos que já está habituado para confecção de trabalhos metalocerâmicos ou com outro sistema cerâmico.

    Preparo Dental

    O preparo dental preconizado para elementos PROCERA é semelhante ao preconizado para todos os sistemas metal-free:
  • redução axial entre 1,0 e 1,5mm;
  • redução oclusal entre 1,5 a 2mm;
  • ângulos e bordas arredondados;
  • término cervical em chanfro largo, 0,5 a 1,0mm intra-sulcular.
  • Moldagem

    A moldagem para obtenção do troquel também pode ser feita com a técnica e o material com os quais o profissional está habituado: silicones de adição ou condensação, poliéteres, mercaptanas, anel e godiva, etc.

    Prova do Coping

    A prova do coping PROCERA pode ser feita da mesma forma que a de um coping metálico. Vale lembrar que como todo elemento metal-free, a adaptação do coping deve ser passiva, não necessitando esforço para seu assentamento ao preparo. Eventuais ajustes nesta fase podem ser executados com instrumentos rotatórios diamantados em alta velocidade e sob refrigeração. Após a prova, o coping deve voltar ao laboratório juntamente com modelo antagonista, tomada de relação inter-oclusal e informações sobre as características estéticas desejadas como cor, textura de superfície e caracterização.

    Cimentação

    A cimentação dos elementos protéticos PROCERA pode ser feita com técnica convencional (cimento de fosfato de zinco ou ionômero de vidro) ou adesiva (cimentos resinosos de dupla cura ou quimicamente ativados). Vale salientar que a estrutura dos copings (em alumina ou zircônia) não aceita nem necessita condicionamento ácido, sendo recomendada apenas a limpeza interna das peças com álcool isopropílico. O condicionamento com ácido hidrofluorídrico só é indicado para cerâmicas com alto percentual de sílica em sua composição como as feldspáticas ou as de disilicato de lítio (Empress II).

    Versatilidade Clínica

    As características estruturais, mecânicas e estéticas dos trabalhos unitários ou de próteses executados pelo sistema PROCERA permitem que sejam indicados e executados nas mais diversas situações clínicas:

  • Coroas totais: dentes anteriores e posteriores; vitalizados ou desvitalizados; sobre remanescente dentinário, núcleo de preenchimento ou núcleo metálico fundido;
  • Próteses fixas (2 retentores e 1 pôntico) anteriores ou posteriores para qualquer segmento de arco, inclusive molares. Os limites para indicação são espaço protético menor ou igual a 11mm antes do preparo e altura mínima do preparo em torno de 3 mm.
  • Laminados: dentes anteriores. As características não adesivas da estrutura PROCERA necessitam que os preparos para laminados sejam menos conservadores, com recobrimento incisal e pequeno avanço nos contatos proximais.
  • Propriedades Procera

    A compactação das partículas de óxido de alumínio (2 atmosferas) e temperatura de sinterização (1600oC) conferem à estrutura PROCERA altos níveis de resistência flexural (700Mpa) e à fratura, superior aos demais sistemas cerâmicos do mercado.

    Diversos trabalhos têm demonstrado a excelência quanto à adaptação marginal dos elementos PROCERA. Os valores de desadaptação marginal relatados variam entre 50 a 85 micra, evidenciando altíssima fidelidade para um sistema metal-free.

    Estudos clínicos longitudinais mostram uma efetividade dos trabalhos PROCERA para uso em qualquer área da boca e sucesso em 95% dos casos após 5 anos de uso.


    Substituição de coroa metalocerâmica (dente 26) esteticamente insatisfatória por elemento PROCERA.

         
    Substituição de coroas em resina por elementos PROCERA nos dentes 11 e 21. Previamente foi executado um tratamento clareador dos arcos superior e inferior.


    Substituição de coroa metalocerâmica esteticamente insatisfatória (dente 12) por elemento PROCERA, precedida de cirurgia para nivelamento gengival.


    Prótese fixa (35-36-37) PROCERA. O pôntico é unido aos retentores por solda cerâmica.


    Reabilitação protética do arco superior com associação de elementos PROCERA (13-12-11, 21 e 22) conjugada a prótese metalocerâmica (23-24-25-26-27).

    As possibilidades restauradoras do sistema PROCERA estendem-se ainda a casos de próteses sobre implante, unitários, segmentos de arco e grandes reabilitações. Com um tempo ainda curto de mercado, este sistema já recebeu alguns upgrades, tanto no software de captação e tratamento das imagens como nas etapas de produção automatizada, gerando significativas melhoras na qualidade e adaptação dos elementos produzidos.

    As características tecnológicas deste sistema certamente nos reservam ainda grandes avanços e maiores facilidades técnicas, o que contribuirá para definitivamente incorporá-lo a nossa rotina de trabalho, oferecendo a nossos pacientes trabalhos estéticos, mecanicamente seguros e garantidos.

    » Referências

    1. CHAI, J. et al. A multicenter longitudinal clinical trial of a new system for restorations. Int J Prosthodont, v. 77, n. 1, pp. 1-11, Jan 1997 2. FRANCISCHONE, C.E.; VASCONCELOS, L.W. Sistema PROCERA. Nova tecnologia em estética. São Paulo

    Quintessence Editora, 1a Ed., 2000 3. MAY, K.B. et al. Precision of fit: the PROCERA AllCeram crown. J Prosthet Int,. v.80, n.4, pp. 394-404, Oct 1998 5. NEIVA, G. et al. Resistance to fracture of three all-ceramics systems. J Esthet Dent, v.10, n.2, pp.60-66 6. ODEN, A. et al. Five year clinical evaluation of PROCERA AllCeram crowns.J Prosthet Int, v.80, n.4, pp. 450-456, Oct. 1998 7. SULAIMAN et al. A comparison of the marginal fit of In Ceram, IPS Empress and PROCERA crowns. Int J Prosthodont , v.10, n. 5, pp. 478-84, Sept-Oct. 1997 8. WAGNER, W.C.: CHU, T.M. Biaxial flexural strength and identation fracture toughness of three new dental core ceramics. J Prosthet Dent, v.76, n.2, pp.140-44, Aug.1996

    * Prof. Ms José Carlos Garófalo

  • Especialista em Dentística
  • Mestre em Dentística pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FO - USP)
  • Diretor do Departamento de Dentística e Prof. Efetivo do Curso de Especialização em Dentística da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas (EAP - APCD)
  • Prof. Efetivo do Curso de Especialização em Dentística da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Associação Brasileira de Odontologia (ABO - São Luis, MA)
  • Coordenador dos Cursos de Atualização em Odontologia Estética e Adesiva do Centro de Estudos, Treinamento e Aperfeiçoamento em Odontologia (CETAO - SP e EISO - PR)


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